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domingo, 23 de outubro de 2011

Resta

Autor: Laércio Lins


Resta a resta da fresta da porta,
o rastro de espuma depois do navio
o traço de fumaça depois do avião
o rastro da saudade do amor que sumiu

Resta o passo do homem que segue sozinho
Resta o rastro no fim do caminho
o sopro do vento girando o moinho
A vida no pássaro, o ovo no ninho.

Resta o trovão depois do relâmpago,
resta a fumaça depois da explosão
resta a lava depois do vulcão.
Depois do fogo, da água e do ar, resta o chão


www.aostraeaperola.blogspot.com

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Apenas conceitos

Autor: Laércio Lins

Os sentimentos saem pelas janelas de quem escreve e entram pelas portas de quem lê, ganham outras possibilidades de interpretação e provocam novos sentidos em outros mundos.
A poesia se liberta do autor, se multiplica tanto quanto lida for e deixa um vazio a ser preenchido pela próxima a ser escrita
A sensação de fluxo torna a poesia ainda mais bonita, traz uma sensação de infinito perto, bem ali, quase ao alcance das mãos. Ao mesmo tempo, um sentimento de perda, a espera pela onda que se repete, no entanto, a cada momento em nova forma. Tudo está em transformação, a próxima palavra, o próximo momento, a próxima conversa, o próximo segundo agora é passado. O final anuncia um novo início, o ponto de partida para quem está indo, pode ser de chegada para quem está voltando, por que “nada do que foi será do jeito que já foi um dia.” A prosa pode ser visto como poema ou poesia, o que importa é sentir e o que fica é a ação que leva à renovação.
Fazer é ação, desmanchar o que foi feito também, é tudo uma questão de referência. Tudo flui e tudo é relativo, em um balé de escolhas, as idéias originam nascimento ou morte, adormecem com a noite para não mais acordar ou acordam numa manhã de setembro junto com a primavera a florescer novos gestos.
A poesia está na mãe que amamenta o filho que acabou de nascer e também na morte, vi isso em meu pai em sua partida, sentimento doloroso, mas, que tinha um quê de conclusão, de dever cumprido, de encerramento e também de recomeço.
Para quem não sabe rezar, a poesia é oração, por que Deus compreende a língua dos sentimentos e do amor, não há tradução para o sorriso de uma criança a conversar com seu brinquedo nem para o silêncio de um inocente condenado que desistiu de lutar.
Vejo poesia em palavras que jamais serão escritas, não se conjuga o verbo chover, no entanto, em sentido figurado a chuva pode significar lágrimas e ao mesmo tempo alegria para o homem camponês ao final da estiagem. Tudo está no milagre de viver.
A poesia é muito mais que palavras organizadas em um lay out estético, a verdadeira poesia não cabe na forma sem conteúdo como pensavam os parnasianos, a métrica e a rima são apenas possibilidades.
Há poesia nos pés descalços que pisa a uva, tanto quanto na sofisticação do vinho em brinde, por que poesia é o nome que se deu a todos os sentimentos e todos os momentos. A poesia anda com os pés no chão e a cabeça nas nuvens. Não permite preconceitos, não discrimina e não julga, apenas alivia a inquietude de quem escreve ou de quem lê, com a mesma simplicidade que a água sacia a sede, se molda aos sentimentos como as luvas se acomodam às formas das mãos.

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domingo, 24 de julho de 2011

Chuva

Autor: Laércio Lins


Nuvem cobrindo as estrelas, escurece o céu pra chover.
Na secura da terra, gotas d água são abraços
mudando a paisagem, acabando a estiagem.

Chão seco, agora molhado,
chuva baixando a poeira,
chuva apagando a fogueira,
chuva lavando a poesia.
chuva escorrendo na face
chuva esfriando o cansaço

Chão seco, agora encharcado,
pensamento novo, molhado. Raios e trovões,
sentimento confuso entre a seca e estiagem.
Inerte palma, cacto, planta,
enquanto a alma se espanta
a poesia acalanta,
meu coração se encanta
contemplando este chover.

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sábado, 28 de maio de 2011

Eterno, simplesmente

Autor: Laércio Lins


Eterno é o hoje, o agora. Eternos, hoje somos até quando durar nossa eternidade. O encontro na comédia de Dante ou na poesia de Cervantes, parte deste eterno, meu paraíso, meu inferno.
Eterno é o momento, o finito, o segundo, o minuto, a hora.
Eterno é o momento em sua plenitude, envelhecer com eterna juventude, beber na fonte da vida cada gota do inverno, ficar úmido e brotar flores e frutos.
Ser eterno é descansar em pensamentos, filosofar sentimentos e coisas que fluem, se olhar e se ver no velho e no novo, contemplar a natureza na perfeição da casca do ovo e respirar cheiros eternos: Erva doce, cravo, canela, mel e limão, água límpida na nascente do rio lavando a vida como reza.
Amar a Pablo Neruda e Vinícius de Moraes. Ser eterno, ser eterno.
Viver um sonho em um livro, aprender novas idéias, enternecer, adormecer e acordar. Ir à guerra quando for preciso, descansar em paz por que é preciso levantar e caminhar em direção ao sol, como um girassol.
Ser eterno na língua de Camões ou nas melodias de Carlos Gomes, eternamente raízes, nossas raízes lusitanas, nossas mães e pais.
No amor tranqüilo e na inquietude das paixões da tragédia Shakespeariana. Eternamente eterna a inspiração do poeta, minha inspiração. Beber a poesia como o néctar da sofisticada simplicidade. Eterno é fazer da poesia uma oração a Deus.
Aquecer o coração protegendo os sentimentos, banhar a alma em neve, conservando-a terna, a alma é eterna e descansa na relva da inspiração trazida por um motivo; no nascimento de um poema novo, a promover o próprio nascimento se fazendo eterno.



Razão: www.laerciolins.blogspot.com.br
Emoção: www.aostraeaperola.blogspot.com.br

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Luar

Autor: Laércio Lins


Lua, ponto de encontro
para quem anda distante.
Visão biruta do Biruta bar.
Pina, saudade de Olinda,
O mar de Recife é o mesmo de lá.
Lá onde anda a menina do frevo,
Do som Capiba, Pernambuco.
Senzalas, sentimentos escravos, mamelucos.
Gilberto Freire, visão Mucambos.
A ponte, os rios de João Cabral,
Trinta copos de shopp a Carlos Pena.
Sá Grama, Recife Armorial,
Ariano ninando a poesia.
Uma estrela rupestre me acende,
meu pensamento ferve.
È noite em meu sentimento que amanhece.

Lua, adereço noturno,
traz ao meu peito frio, danças do mar,
cantos em ondas, balanço do maracatu Estrela Brilhante
Peixes, jangadas, navios, espuma, ciranda.
Musa sereia,
“A bela da tarde” da praia de Boa Viagem a sorrir
do Homem da Meia Noite.
Visão Biruta numa noite ao meio dia
Ciranda da vida, girando no ar,
Frevo que liberta a tristeza em três dias.
Ondas do mar da Ciranda de Lia.


Homenagem aos poetas pernambucanos Carlos Pena Filho (1929-1960), João Cabral de Melo Neto (1920-1999), o movimento armorial de Ariano Suassuna, Capiba (1904-1997), Gilberto freire (1900-1987) e a Lia de Itamaracá, rainda da ciranda.


Razão: www.laerciolins.blogspot.com.br
Emoção: www.aostraeaperola.blogspot.com.br

quarta-feira, 16 de março de 2011

A Poesia

Autor: Laércio Lins

O que é isso?
Esse universo será o ar? Ou água?
O que é isso?
Esta beleza será flor?
Ou uma folha planando seca ao vento?
O que será?
Água de coco? Mel de abelhas?
Não deve ser.
Tem cheiro seco de sândalo
e brilho de purpurina.
Às vezes mistério, misto de sensações,
sentimentos de paz e guerra,
mistura de mulher e menina.
Às vezes bruxa, duende, em outras horas fada-madrinha.
Não deve ser uma pedra, muito menos um metal,
tem a luz dos vaga-lumes, piscando no pensamento,
tem o vôo das gaivotas, viajando céu a dentro.
Flui leve qual gota d água,
flui morna tal uma lágrima.

O que é isso? um furacão?
Acho que não.
Tem o silêncio das larvas que escorrem de um vulcão,
os sentidos do samurai e a inquietude da procura.
Poderia ser a chuva abraçada à ventania,
Ou o encontro entre a noite e o dia
ou simplesmente orvalho ao amanhecer.
Poderia ser a lua ou desabrochar de primavera,
anunciação de chuva, abertura, recomeço, sinais de uma nova era.
Poderia ser açúcar, sal, pimenta, todo tempero,
poderia ser motivo, razão ou mesmo um cheiro,
mas, tudo seria pouco para definir, com certeza, esta obra,
que assume forma de poema e prosa com a mesma sutileza
que se transforma em pintura, e dá vida a uma tela.
Explicação? Não há. Simplesmente poesia.

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domingo, 9 de maio de 2010

Poesia é coisa séria

Autor: Laércio Lins

Respeito muito as palavras, elas são realmente sagradas. Muitas pessoas não atingiram e não atingirão a percepção de que as palavras até servem para a comunicação entre as pessoas, e essa pode não ser a função principal.
As palavras traduzem sentimentos e deveriam ser utilizadas apenas com sentimentos nobres, deveriam ser utilizadas como tijolos numa construção, formando e fortalecendo as pessoas.
Poesia pra mim é coisa séria, ilumina meus vazios, equilibra meus passos e enfeita meu silêncio. A poesia me permitiu ver o mundo mais bonito, me trouxe uma realidade mais aceitável. Há quem diga que poesia é coisa de quem não tem o que fazer. Quem pensa assim ainda não percebeu que dois mais dois até pode ser quatro, padaria até vende pão, são provas simples de nossa realidade e de que o mundo muda todos os dias junto com nossas cabeças.
A poesia está em tudo, até em um cálculo complexo, pensei nisso um tempo atrás quando assisti o filme "Uma mente brilhante."
A razão e a emoção não têm formas pré estabelecidas, as necessidades humanas aparecem primeiro junto com a poesia, que não necessariamente surgem com rimas ou regras gramaticais.
A poesia é o sentimento pintado com palavras em uma tela emoldurada com amor, ela revela as cores e o sentimento do som e do silêncio. Poesia bonita é aquela não se limita as salas de recitais. A verdadeira poesia sai do papel e se instala sem preconceito no coração das pessoas, mesmo das pessoas que não aprenderam a ler. A verdadeira poesia não aceita preconceito, está na arte ou no artesanato, está onde haja qualquer forma de expressão verdadeira. Para que a poesia tenha lastro, um único pré-requisito é que nasça de um sentimento.

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